• Marcio Costa

Carnaval

Atualizado: Fev 28

“A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia fazer mais nada”.

Bukowski



É carnaval lá fora, mas aqui dentro é silêncio. Uma madrugada vazia. Acordo, sento-me na cama, vejo as luzes pelo vidro embaçado da janela. Ouço sons de batuques, alguns muito próximos e vozes como se existisse uma procissão a alguns metros. Suspeito está frio, mas meu celular avisa que temos apenas 21°.


Espalho a cortina por toda a extensão da janela, não quero ser percebido. A angustia, ao passo que forma um coro de vozes, traz a percepção absurda de que me falta alguma parte. Sou, de uma maneira que não sei explicar, alguém com um pequeno vazio dentro de si. Tenho que criar novos hábitos, penso.


Olho minhas mãos e vejo a nervura e o enraizamento dos vasos. Por um instante, ocorro-me que fiz isso há alguns anos em situação semelhante. Pouca coisa mudou, demora-se muito para envelhecer. Julgo, observo, analiso. Tenho mãos compatíveis com minha idade.

Ter a percepção desse vazio, de uma forma bastante sólida, ajuda-me a abraça-lo.


Ele sempre esteve aqui. Desde a infância, depois um pouco mais velho, após a vida de adulto, e desde sempre, tornou-se meu companheiro. O pássaro azul de Bukowski. Já o alimentei algumas vezes, inseguro com meus medos humanos, da morte, da solidão, do desprezo.


Um vazio que ressoa como um apito, agora, na madrugada, avisando-me que outra vez ele cresce, está a ponto de explodir. Mas, mesmo com todos os pensamentos disfuncionais, ainda nutro uma esperança contida. De certa forma, sempre foi um vazio cognitivo. Um vazio de quem precisa conhecer a si mesmo.


Durante boa parte da vida, recordo-me, ele me fez perguntas, travamos um diálogo, irmanados pelo tempo e pelas eras, e sempre compreendi que era meu vazio. Nem tão abstrato a ponto de tratá-lo como um sentimento, nem tão concreto a ponto de colocar duas xícaras de café no micro-ondas.


A demanda, sempre unilateral, foi de atenção. Sabe o ser humano que já tentou fazer o que gosta e encontrou-se numa situação em que não é bom o suficiente em nada? Sempre sou eu, na esperança de nutri-lo, saciar a sua fome, posto que, ao contrário de qualquer outra coisa lógica, um vazio alimentado, vai encolhendo, até a dissipação, depois fica completamente ausente, surgindo apenas nos pequenos lapsos fora de meu controle.


Confesso que nosso diálogo sempre foi complicado, sempre fiz o que podia para evitar o surgimento dele. Eu sofro com sua presença, minha mente e meu corpo são escravos das suas necessidades, a ponto de me fazer pensar que vivo apenas para poupa-lo, entregar-lhe um corpo, para que pudesse ter uma forma.


Agora, metade da madrugada, ele está aqui do lado, numa cadeira, folheando um livro que não terminei ainda de ler. Mesmo esse vazio não sendo voraz por pessoas, ele gosta delas. Até sente ternura quando elas entram e saem da minha vida. Percebo agora, como num susto, que eu poderia ser o vazio do meu vazio.


Ele também não anseia por estar aqui. Percebo que me fita com olhos julgadores, forma sonâmbula de criatura, como se condenasse e, por que não, perguntasse o motivo de estarmos cara a cara novamente. Sem palavra alguma para dizer-lhe, apenas acolho-o. Ele cabe agora nos meus braços como um bebê.


O vazio que me acomete recebe suas explicações e parece estar satisfeito com elas. Pela experiência, em tão nobre profissão de cuidador dessa criança, é fácil saber que ela vai ficar por um tempo ainda. Já caminha pela casa e fita o felino. Eu continuo escrevendo sobre ele, mas sem sua atenção.


Uma pessoa foi embora da minha vida. Ele sabe disso. Encaro-o com os olhos demoníacos, e sorrio para que saiba que demônios são para mim como pedras, com a diferença pontual de que pedras existem. Enquanto circula pela casa, ouço suas perguntas sobre os acontecimentos.


Sempre questiona se ela vai voltar. Eu sempre respondo que de certa forma estamos todos indo embora, voltar ou não deixaria de ser a questão mais importante. E o que seria melhor que isso?, ainda me pergunta. Eu sempre respondo que a motivação é o mais importante. Pessoas não são pássaros que comem sementes. Cada um precisa cuidar de si mesmo, do vazio semelhante ao meu e que seria preferível duas pessoas separarem-se pelos motivos certos do que ficarem juntas pelos errados.


Ele balança a cabeça como se dissesse que sou o homem mais idiota do mundo, e talvez o seja. Estou sozinho, como sempre estive, como vou está. Essa é nossa condição. Um dia, até mesmo este vazio vai se dissipar e se extinguir, para confirmar que em todas as horas, mesmo as mais dramáticas e importantes, os que dizem que te amam, podem somente querer ir embora, não sendo condenável em nada, e você precisa deixa-los ir.


Neste momento, entre apertos no peito e ruídos de carros, cada vez mais altos, encerra-se a madrugada. Por uma fresta percebo veículos e pessoas lá fora. Lembro, por motivos que não sei explicar, de um filme que já vi: o dogma do amor. E, por um instante, tenho certeza absoluta que o amor não passa disso, de um dogma, uma artificialidade, algo em que você precisa acreditar e que as pessoas amam, apenas e somente, a sensação que se gera ao está com outra pessoa. E que algumas, nem isso.


É carnaval lá fora, mas aqui dentro é silêncio.


***


  1. Troque uma ideia comigo, compartilhe esse texto se te ajudou e me acompanhe nos espaços onde escrevo. O convite está feito.

  2. Jusbrasil: https://marciobcosta.jusbrasil.com.br

  3. Site pessoal: https://www.marciocosta.adv.br

  4. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/mbcosta84/

  5. Fonte da imagem: https://pixabay.com/pt/

0 visualização

©2020 criado e mantido por Márcio Costa.