• Marcio Costa

Na lata do lixo

Atualizado: Mar 2



A sensação de que você vai ser jogado numa lata de lixo é ímpar. Vou repetir. A sensação de que você vai ser jogado na lata do lixo é ímpar. Ímpar. Palavra que uso pouco, já que nada em minha vida teve essa condição nos últimos anos. A não ser agora, com calafrios de ansiedade, esperando o caminhão do lixo e seus operários, como se passassem na minha rua, me encontrando de prontidão, como um objeto. Um sofá, muito útil um dia, depois, descartado.


Quando penso nela lembro de Cass, mesmo não sendo tão maluquinha. A mulher mais linda da cidade, do Bukowski, tinha um lado doce, mesmo que tivesse outro bem filho da puta. Acho que passei a vida toda apaixonado por Cass de alguma forma e buscava em qualquer mulher algo dela.


Mas Cass nunca existiu, nem vai existir, ela morreria em pouco tempo. Rememoro os cabelos longos e volumosos, o corpo pequeno e a forma de mulher, mas antes disso, a personalidade. Ela, não Cass, mas ela de verdade, é muito independente intelectualmente e tem olhos grandes e curiosos.


Envolto numa aura noturna, aguardo os operários em função. Em breve um caminhão de lixo vai passar em frente à minha casa, como é de costume, todas as terças, quintas e sábados. Pois bem, hoje é terça. Não tem como se fugir de uma data. Não se foge da matemática. Das agendas dos serviços públicos. Isso não é ciências humanas, não existem saraus ou estudantes fumando e cantando qualquer rock esquisito, com possibilidades de a noite evoluir.


Não posso mais chamá-la num canto, a dois, falar que a amo, que eu faria tudo para ficar com ela. “Eu já fiz isso, há alguns anos”. Mas hoje, para a própria felicidade dela, é preciso que me deixe. Ela precisa ir, tem uma vida para viver. “As pessoas querem alcançar as estrelas, sempre falo”. Todo mundo quer viver a própria vida sem saber ao certo o que isso pode significar. Todo mundo quer ter seu momento ao sol nesse mundo em fuga.


Dalai Lama disse uma vez: “Se você contribui para a felicidade de outras pessoas, encontrará o verdadeiro bem, o verdadeiro sentido da vida”.


Estou triste por ficar fora dos planos, mas algo em mim pulula, além da ansiedade, pois a mulher que mais amei e amo na vida tem um caminho e pode fazê-lo. Acho que isso deve fazer parte do amor, deixar ir, se resignar num calafrio contido, mas ao mesmo tempo ter parte do coração tomado de uma alegria quente e estranha, que somente quem ama de verdade pode sentir.


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