• Marcio Costa

Pandemia e Direito de Existência



Rio Branco, Acre, Amazônia, Brasil, um dia qualquer de maio de 2020. Estou em isolamento social (boa parte de meu tempo) há muitos dias. 


Sempre me diverti escrevendo cartas do futuro para quem sou agora ou o que seria, era divertido de verdade. Era um passa tempo interessante, que se tornava um exercício de escrita. Sempre insinuei mundos pós apocalípticos, distopias e personagens disruptivos em busca de alguma forma de salvação.


A ironia maior é que hoje escrevo para o futuro. Talvez um futuro que não venha a existir. Todos sabemos que a pandemia está em curso e provavelmente existirá por algum tempo. Talvez sobrevivamos e algumas lições possam ficar inscritas numa era pós-COVID19. Talvez não.


A pandemia é diferente aqui na região norte, as distâncias são maiores, a estrutura do sistema de saúde pode colapsar com qualquer evento mais significativo, o novo Coronavírus não precisaria de muito para que os médicos precisassem escolher entre quem vive e quem morre.


Acordo nesse dia e cumpro um pequeno ritual. Jornais, últimas notícias, o avanço da doença em meu Estado, no meu país e no mundo. Calculo os possíveis novos epicentros da crise sem muita esperança de não está no centro de um furacão. Por mais que possa parecer desanimador, é uma forma de permanecer lúcido e “no controle”. Os óbitos crescem e alguma coisa me diz que todos estavam errados desde o começo.


Acompanho pelos noticiários e redes sociais o posicionamento do líder máximo da nação. Vejo desdém. Sinto uma náusea análoga à náusea de um instante premonitório. Uma náusea contida pelos meus intestinos seguida de um silêncio de quem sabe onde isso tudo pode chegar. Por alguma razão nega-se o óbvio. Distrai-se com outras contingências que nem seriam contingencias em um país sério.


Os políticos fazem política. A pandemia é uma pauta importante, a era pós-COVID19 terá eleições para os que sobreviverem. O Presidente do país, cujo nome se tornou um caractere que alude à ignorância, cumpre o papel que cumpriu nos últimos trinta anos. É o porta voz de uma política oportunista e de pautas emergenciais que não trazem novidade alguma, mas apenas aproveita-se do medo e se alimenta dos anseios de parte da população e dos mais extremistas.


O descompasso entre o que precisa ser feito e a herança política depois que isso tudo passar é uma preocupação crucial. A demissão do Ministro da Justiça tem um simbolismo chave na dimensão política. Inevitavelmente todos pensam em si mesmos. E o mais perturbador, se é que não nos surpreenderemos amanhã, como acontece todos os dias, é a postura de um Governo que optou por promover o desaparecimento de seu povo em nome das urnas.


O ano de 2022 está matando as pessoas em 2020.


É patente que as ações desenvolvidas demostram uma insuficiência. Não fosse apenas isso, o embate sem necessidade entre a comunidade acadêmica e o “achismo” de alguns, estes raramente informados, quando divulgadores de fake news, seja por redes sociais ou grupos de aplicativos de mensagens, tem promovido um retrocesso que compromete vidas humanas e a respeitabilidade do país no ambiente internacional. Estes que dizem amar a pátria, são os que estão a rebaixá-la, estão a matar sua população e são os responsáveis pelas valas comuns, que certamente os acolherá numa parte obscura da história.


O alarmismo se justifica pelas estatísticas, mas se intensifica quando se pensa que o número de casos e de mortos podem ser muito maiores, devido às subnotificações, não é humanamente possível saber quantos são os atingidos no Brasil. Nas palavras de Jonnefer Barbosa***, “Os subnotificados da Covid-19 são os desaparecidos políticos do nosso tempo recente”. E isso faz muito sentido.


A força dessa percepção é arrebatadora. Faz sentido pensar que um Presidente possa promover o desaparecimento de seu próprio povo? Talvez em um mundo distópico, mas na contemporaneidade não. Nessa toada, o país pode ser o mais proeminente anfitrião do novo Coronavírus, mas sem a estrutura de China e Estados Unidos.


A postura oficial do Governo me fez pensar no meu direito de existir enquanto pessoa. Corremos os riscos de uma era onde a História pode ser constantemente reescrita. Se é fato que sempre foi escrita pelos que venceram, uma nova variável parece acelerar esse processo de apagamento, uma nova possibilidade de construção discursiva traz uma importância ímpar para a ignorância. Como nunca antes, mesmo que isso faça tão pouco sentido, jamais tivemos tão pouca Memória.


Discursos antes inscritos em nosso corpo e na geografia, que arregimentavam parte do que veríamos a nos tornar, são combatidos. Sempre possibilitados de serem observados, numa escala de amplo espectro, hoje sobrevivem pouco, como numa memória flash, um drive fadado a novas inscrições, eternamente.


Estamos sendo apagados. É a pior forma de morte. Estatísticas que não foram observadas. O negacionismo da crise também passa pelo seu apagamento. Especialistas dizem que essa crise é dez vezes maior, mas o Presidente, que foi eleito para gerir um país e não apenas para ser adorado pelo seu séquito de alienados, segue metodicamente seus comportamentos, pensando em seu futuro.


Bolsonaro incita um extremismo que sua própria condição intelectual e política não seria capaz de suportar. Mas, sabendo disso, permanece com sua postura “em vias de ser”, quando se sabe que nunca seguraria uma ditadura além do discurso. E como nunca, faz muito sentido pensar que pior que um fascista é um fascista burro.


*


Troque uma ideia comigo, compartilhe esse texto se te ajudou e me acompanhe nos espaços onde escrevo. O convite está feito.

Jusbrasil: https://marciobcosta.jusbrasil.com.br

Site pessoal: https://www.marciocosta.adv.br

LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/mbcosta84/

*


Referências 

Foto:  https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/galeria_de_imagens/2020/04/735531-com-cemiterio-lotado-manaus-faz-valas-comuns-para-vitimas-de-coronavirus.html

***Jonnefer Barbosa. Políticas de desaparecimento e niilismo do Estado. Disponível em:  https://n-1edicoes.org/024


17 visualizações

©2020 criado e mantido por Márcio Costa.